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Dadona por trás de “Carta de Spinoza Aos Cuidados da Era de Aquário”

Foto do escritor: Duophono Produções
Duophono Produções
6 de out.
5 min de leitura

Atualizado: 7 de out.

POR DENTRO DA DUOPHONO



“Eu já sabia que precisava cantar essa música”


Única composição não autoral do álbum RADIANTE, a canção de Déa Trancoso chegou a Dadona em um show, ganhou uma nova interpretação e acabou se tornando uma espécie de abre-alas para o universo do álbum. Nesta conversa. Dadona conta sobre esse encontro, a participação de Déa na gravação e a construção de um arranjo que nasceu pelas vozes.


Há músicas que entram em um repertório por planejamento. Outras parecem encontrar quem precisa cantá-las. Foi assim com “Carta de Spinoza Aos Cuidados da Era de Aquário”. Dadona ouviu Déa Trancoso interpretar a composição acompanhada apenas por um cuatro venezuelano durante o espetáculo Mamelucas, no Sesc Campinas. Semanas depois, reencontrou a canção em um vídeo e começou a tirá-la: transcreveu a letra, buscou a harmonia e criou um primeiro arranjo em loops vocais.


A música entrou no repertório e, mais tarde, em RADIANTE. Entre as canções do álbum, é a única que não foi composta por Dadona.


Para entender por que justamente essa faixa encontrou lugar no disco e como ela ganhou novos contornos até chegar à gravação com participação da própria Déa Trancoso. Conversamos com Dadona sobre interpretação, corpo, arranjo e tudo o que aconteceu antes do play.



Como “Carta de Spinoza Aos Cuidados da Era de Aquário” chegou até você?


Conheci essa canção num show que fui no Sesc Campinas: Déa, Kátia de França e Consuelo de Paula, Mamelucas. Nesse show, Déa cantou a música apenas com o cuatro venezuelano e eu fiquei encantada com a letra.


Semanas depois, vi um vídeo dela no Instagram cantando a canção. Corri para aprender a cantar, tirei a harmonia, transcrevi a letra e comecei a fazer um arranjo nos loops porque eu queria muito cantá-la. Gostei tanto do arranjo que acabei incorporando a canção ao meu repertório.


RADIANTE é um álbum autoral. Por que essa foi a única composição de outra pessoa escolhida para o disco?


Eu gosto do anúncio, da anunciação que a canção tem. Essa evocação do inevitável, essa convocação do corpo.


Acho que estamos num momento, dentro da nossa estrutura social, em que a mudança é inevitável, para além de urgente. E RADIANTE é para ser essa força de alegria, de resistência diante do trágico, das previsões fatalistas.


É como uma semente despontando na terra, uma força de regeneração. Regenerar pela alegria, pela beleza, pela vitalidade, pela sensibilidade do corpo, que é nosso direito e nosso poder.


O que significa “Carta de Spinoza Aos Cuidados da Era de Aquário” para você?


Spinoza via Deus como a própria natureza em sua totalidade, uma potência que acontece independentemente da nossa vontade.


O arquétipo de Aquário, na astrologia, está relacionado à coletividade, ao servir ao todo, a esse coletivo vital que ultrapassa a humanidade e nos reconecta conscientemente a toda esfera de vida do planeta Terra, à natureza.


A canção vem anunciar o despertar dessa consciência por meio do corpo, e dessa clareza da inseparatividade do todo, que pode ser a força que nos relembre de onde viemos e nos realinhe para onde vamos.



Como foi transformar uma composição de outra pessoa em uma interpretação sua?


Acredito que ser intérprete é sobre encontrar aquilo que você precisa dizer e que alguém já disse perfeitamente. Senti uma ressonância com a composição logo de cara. Eu já sabia que precisava cantá-la.


Preservei a essência da composição, mas já ouvia várias camadas, que eram a música reverberando dentro de mim. A instrumentação foi outra, a tonalidade, a harmonia do arranjo vocal — tudo isso surgiu a partir de como eu ouvia a música na minha cabeça.

E quais palavras ganham destaque é algo muito pessoal. É isso que, para mim, é a força da interpretação: colocar luz naquilo que só você vê e sente de modo único.



E como Déa acabou entrando também na gravação?


Eu e Déa nos conhecemos na defesa do doutorado dela, e ali fiz o pedido para gravar a canção e o convite. Nossa sintonia foi instantânea. Cantamos juntas a canção nos corredores da Faculdade de Educação da Unicamp, sem combinar nada, nem o tom, e já saímos abrindo vozes perfeitamente desde a primeira nota.


Ela é essa artista afiada, precisa, necessária e, para mim, uma mestra. É uma honra poder gravar uma composição dela, ao lado dela.


É uma canção inédita, que ainda não havia sido gravada, e faz parte do repertório que ela compôs para o doutorado, chamado Cartas ao Vento.



O arranjo nasceu de um jeito diferente das outras músicas do álbum. Como foi esse processo?


Comecei o arranjo com os loops vocais, a linha de baixo e uma levada que fiz no beatbox. Como em todas as canções do álbum, criei essas dobras de vozes, mas ela tinha uma levada mais rock, mais groovada.


Quando eu e o Ivan fomos pensar nela juntos, ele sugeriu esse dub e começamos a trazer sonoridades que dialogavam mais com esse universo. Ele fez a programação da bateria e depois chamamos o Ariel para gravar as percussões. Ele trouxe umas panelinhas e outros objetos para tirarmos timbres de efeito bem diferentes.


Mantivemos o arranjo vocal original e a linha de baixo do início e fomos acrescentando outras texturas, como a guitarra meio líquida no começo, usando a tensão das cordas, alavanca e glissandos.


Também diferenciamos os timbres das teclas no verso e no refrão: primeiro com um synth/strings para dar base e depois como um clavinete, mais crocante, trazendo outra textura.


Sinto que a música tem, nos versos, um aspecto misterioso e tenso em certa medida — disso que está chegando, mas que ainda é desconhecido. No refrão, ela já fica mais relaxada. São sensações que o arranjo vocal já trazia logo de cara, então os outros timbres foram dando suporte ao que já estava ali.


É interessante porque normalmente o arranjo vocal não é o ponto de partida; costuma ser uma das últimas coisas que acrescentamos nas camadas. Aqui foi o contrário. Então, assim como o disco todo, é uma faixa bem vocal. Os vocais estão muito presentes.



Existe um verso que concentra especialmente o que essa música representa para você?

“Diz que aquário é uma era envolvente que eletriza todo corpo em rebeldia.”


A “era envolvente” me remete ao oposto da cultura de progresso e desenvolvimento: o des-envolver, dito tantas vezes por Nego Bispo e Ailton Krenak.

É o momento de envolver-se com a vida, com o outro, com a natureza, de abandonar a bandeira do progresso e do desenvolvimento. E isso está diretamente conectado ao corpo vivo, eletrizado, desperto e consciente.


Um corpo vivo é um corpo rebelde nos dias de hoje, principalmente porque nossa rotina está configurada para sermos sedentários, letárgicos, anestesiados, dessensibilizados, neutros, apáticos. Esse é o corpo da dominação.


A sensibilidade é o poder do corpo encarnado e rebelde, que não se deixa dominar pelo sistema. Sensibilidade é rebeldia pura.



Que lugar essa música ocupa dentro da narrativa de RADIANTE?

"Ela abre-alas."


Sinto como se estivesse pedindo licença e a bênção a essa mestra que é Déa Trancoso para inaugurar essa visão de mundo que todas as outras canções do álbum trazem.

É honrar a ancestralidade que abriu caminhos e seguir abrindo dali em diante.



Se essa carta pudesse carregar uma única mensagem, qual seria?


A possibilidade de construir alma a partir do corpo e dos poderes do corpo, que a gente ainda nem sabe quais são.




CARTA DE SPINOZA AOS CUIDADOS DA ERA DE AQUÁRIO

Dadona feat. Déa Trancoso


Álbum: RADIANTE

Selo: Duophono

Distribuição: Virgin Music Group


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